terça-feira, 1 de abril de 2008

Paranóia

(Chamemos-lhe Jorge)
O Jorge é um jovem aparentemente normal no entanto extremamente paranóico, todavia, tal paranóia não era flagrante, pois sendo ao mesmo tempo muito reservado, e, como ele próprio se definia, muito difícil de compreender, a grande maioria das pessoas tomavam-no como tímido mas muito profundo.

Era um jovem com uma vida comum à grande parte da juventude portuguesa. Estudante, com gosto pelos seus estudos, dependente dos seus pais economicamente, uma namorada de quem ele gostava imenso...nada de mais, um jovem mediano cheio de esperanças nos seus objectivos para a vida na sua generalidade, no entanto (e tal como já foi dito) paranóico.

Sendo muito reservado, era muito difícil saber o que ia pela cabeça dele, mas como isto é um texto narrativo (ou pelo menos pretendido como tal) podemos fazer uma viagem até aos pensamentos de Jorge.

Enquanto se encontrava sentado num pequeno café, lendo algum dos livros que eram de seu interesse, Jorge decidiu fazer uma pausa na sua leitura para dar um golo na sua imperial e desfrutar um pouco com os seus pensamentos.

Deu por si a pensar no seu estatuto no universo, como a todos acontece mas são poucos os que o admitem ou que se debatem nele realmente. Sendo Jorge paranóico era óbvio que julgava que o seu estatuto no universo centralizava-se na maior importância, mesmo maior do que a de Deus, visto ele entender Deus como o ser supremo que o criou e a todo o restante universo em função dele, e sendo ele a criação suprema de Deus e o plano para o qual todo o universo funciona, era de entender que Deus só existia na medida em que o seu destino era feito em função da sua criação, ou seja, em função de Jorge.

Mas, não entendamos isto desde já como uma megalomania pela parte de Jorge, pois, tal como eu disse anteriormente, Jorge era paranóico, não megalómano...
Adentremos-nos um pouco mais na sua mente...

Tendo nós já entendido a forma da compreensão da posição de Jorge no universo, entremos agora então no que nomeadamente consistem a matéria dos seus pensamentos aquando desta pausa no café.

"Sendo que eu preferi um caminho mais virado para os saberes espirituais, este está de acordo com o meu plano existencial, a não ser que, eles -Chamemos-lhes assim - quisessem que eu assim o fizesse de forma a angustiar-me a minha verdadeira contribuição para o mundo, mas como posso eu saber? não tive uma verdadeira escolha face ao meu futuro, é este o jogo deles, e é isto o que os demais entendem como vida, portanto, deve ser assim para toda a gente, deve ser esta a forma como toda a gente entende a sua vida, como uma aceitação das consequências da escolha.

Mas, no entanto eles podem estar envolvidos num complot para me deitar abaixo, e não posso confiar em ninguém. Mas pensando melhor, como posso e saber que não posso confiar em ninguém, é que, se é um complot, nada do que eu sei ou aprendi acerca do mundo é certo, toda a gente me induziu em erro...a capa deste livro não é vermelha, é de outra cor, se é que se chama cor...

Não, isto não pode ser, eu sou realmente doido...então como era possível, que faria de mim alguém tão importante, que todo o mundo que eu conheço não seria senão uma farsa, que estupidez a minha, como posso ser tão egoísta, levar as coisas a este ponto, que horror, que estupidez...

Ou será que eles querem que eu pense assim?

Hummm...de qualquer das formas tenho de ter isto sempre em mente, é mais prudente."


(Continua)...

Sem comentários: